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Você resolve tudo, menos o que sente por dentro
Ansiedade em quem tem sucesso · 3 min de leitura

Você resolve tudo, menos o que sente por dentro

Há um tipo de competência que se aprende cedo e nunca mais se esquece: a de resolver problemas. O da equipe, o do cliente, o da família, o seu próprio — sempre um pouco mais rápido do que os outros, sempre um pouco antes de alguém perceber que havia um problema ali.

Essa competência costuma ser recompensada. Ela constrói carreiras, sustenta reputações, garante que as pessoas ao redor confiem em você quando tudo parece incerto. Mas ela também ensina, sem querer, uma lição perigosa: a de que sentir alguma coisa é, no fundo, mais um problema a resolver — e resolver rápido.

O resultado é uma espécie de eficiência voltada para dentro. A ansiedade aparece, e a primeira reação não é senti-la, é neutralizá-la. Organiza-se a agenda. Antecipa-se o próximo passo. Ocupa-se a cabeça com alguma tarefa que, ao menos, tem solução clara. Funciona — por um tempo. Até que a mesma inquietação volta, um pouco mais insistente, em um horário um pouco menos conveniente. Muitas vezes, de madrugada.

Não consigo desligar a cabeça à noite

Vale desfazer uma confusão comum: ansiedade não é, na maioria dos casos, um evento dramático. Não é sempre a crise visível, o pânico que interrompe uma reunião. Com muita frequência, ela é mais discreta — e por isso mais difícil de nomear.

É a dificuldade de aproveitar um fim de semana sem checar o e-mail "só uma vez". É pensar no próximo problema antes mesmo de o atual estar resolvido. É a sensação, difusa mas constante, de que baixar a guarda seria arriscado — mesmo quando não há nenhum risco real à vista.

Essa forma de ansiedade não parece com uma doença. Parece com responsabilidade. E é exatamente por isso que ela é tão difícil de identificar em quem já é, por hábito, a pessoa que cuida de tudo.

O custo de resolver tudo sozinho

Quem aprende a lidar com qualquer situação externa tende a aplicar a mesma lógica ao próprio desconforto: analisar, categorizar, agir. Só que o sofrimento emocional não costuma responder bem a esse tipo de gestão. Ele não é um problema de agenda. Ele pede outra coisa — um espaço para ser simplesmente sentido, antes de ser resolvido.

Esse é, talvez, o ponto mais difícil para quem tem uma vida de conquistas: aceitar que há algo que não se resolve sozinho, com mais uma noite de trabalho ou mais uma dose de disciplina. Não porque falte competência, mas porque o problema não é desse tipo.

Um espaço diferente

A escuta psicanalítica não tenta apagar a ansiedade nem "corrigi-la" como se fosse um erro de cálculo. Ela oferece algo mais simples e, ao mesmo tempo, mais raro na vida de quem está sempre resolvendo: tempo e espaço para compreender o que essa inquietação está tentando dizer, antes de tentar silenciá-la.

Às vezes, entender de onde vem esse ruído interno já muda a relação com ele. Não porque ele desapareça de uma vez, mas porque deixa de ser tratado como mais uma tarefa pendente — e passa a ser reconhecido como parte de uma história que também merece ser ouvida.

Este texto tem fins reflexivos e não substitui avaliação ou acompanhamento profissional individual. Se você se identificou com o que leu, será um prazer conversar.

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